quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Madly

Não quero tomar banho!

 
  Podia ver-se pelo céu azul avermelhado, que não passavam das 6:00horas da manhã, quando o despertador de Madly tocava o seu irritante “Triiim!”. Ai, que máquina mais chata e inconveniente! Aqueles ponteiros fininhos que rebentavam com os seus maravilhosos sonhos, e aquelas campainhas reluzentes que reflectiam a realidade!
Vê-se uma mão a sair dum amontoado de cobertores, procurando algo que fizesse parar aquele barulho. Por fim, agarra em algo parecido com um candeeiro e parte o despertador. Ah! Finalmente um momento de silêncio… mas não por muito tempo, pois segundos depois, a porta do seu quarto é aberta de rompante e entra uma mulherzinha que, andando em passinhos curtos e rápidos, se dirige a uma janela. Agarra com firmeza as cortinas de veludo vermelho e abre-as energicamente. Mas a luz frouxa da madrugada não era suficiente para acordar Madly. Esta, de olhos cerrados, fingia não estar a ser observada:
- Menina Madly! – Chama a Ama - Já partiu cinco despertadores esta semana! E ainda só vamos na Terça-Feira! Vamos, levante-se! Tem que tomar banho, vestir-se, tomar o pequeno-almoço e...
- Lavar os dentes… - interrompe Madly, que estava sentada na cama à procura da meia que lhe faltava no pé. – Eu já vou! Prepara-me a banheira enquanto eu trato de escolher a roupa… Mas onde raio é que eu meti a minha meia? – Ajoelha-se e vira a cabeça para baixo, de modo a espreitar por baixo da cama – Eh! Eu tinha deixado aqui o Mr. Fluffy! Onde é que ele está?
- O coelhinho? Estava cheio de cotão! Que nojice, menina Madly! Mandei-o para a lavandaria! Estava todo sujo! – Responde a Ama toda enojada.
- O quê? O Mr. Fluffy só pode ser lavado por mim! É um combinado que nós fizemos! Ele só gosta de ser lavado por mim!
- Se ele só gosta de ser lavado pela menina, é porque adora andar porquinho! Ele não é lavado desde que o paizinho lho deu! E a menina Madly também devia lavar-se! A esta hora já devia estar a…
-Lavar os dentes… já sei! Eu vou só…- antes de terminar a frase, Madly escapa-se da Ama, passando por baixo da cama, e sai do quarto a correr. Vai passando pelos vários corredores olhando para as inúmeras portas, vendo-as com atenção, para não se enganar e entrar no quarto errado. Depois entra numa sala enorme e barulhenta: a lavandaria. Olha em volta à procura duma cesta de roupa suja, dum alguidar de roupa interior, algo com roupa por lavar.
- Ah! Cá estás tu! Estive a manhã toda à tua procura! Se bem que não se pode dizer que já é tarde… – Madly entra numa máquina enorme de lavar a roupa e agarra o seu adorado coelhinho – Deves te ter esquecido do combinado! Se queres ser lavado, tenho de ser eu a fazê-lo! – A menina senta-se e mete sem querer a mão dentro de algo líquido e peganhento que, no entanto, cheirava bastante bem -Oh! Dois copos de sabonete! Que me dizes de eu levar um e dar-te um banho agora? Assim tu és lavado com um copo e a roupa é lavada com outro! É muito mais económico. – Madly pega num e começa a gatinhar para a saída. Mal se põe em pé, sacode o pijama e sai da sala aos saltinhos e cantarolar. Pára um instante procurando algo no corredor… Depois solta uma breve exclamação e dirige-se a correr para uma porta. Olha de um lado para o outro e, tentando não fazer muito barulho, roda a chave que já se encontrava no trinco. A menina entra rapidamente dentro da sala e fecha a porta depressa atrás de si, não dando tempo para que esta rangesse como habitualmente fazia.
                Do outro lado da sala, conseguia ouvir-se uma voz muito aguda e aflita a dizer: “Menina? Onde está? Vá tomar banho! A esta hora já devia estar a…”. Madly interrompe-a no seu pensamento: “Lavar os dentes…”. Sim, só podia ser a Ama.
A Ama era uma fanática pela higiene oral, especialmente pela higiene oral de Madly, coisa que a menina nunca tinha compreendido bem, porque desde que se lembra, a Ama diz-lhe sempre: “Já lavou os dentes?” ou “Não se esqueça de esfregar bem a língua!” ou até mesmo “Se se levantar à noite para ir à casinha de banho, aproveite e dê uma esfregadela nos dentes antes de se deitar”. E, para tornar as coisas ainda mais estranhas, quando era o seu aniversário, o Natal, ou um dia de festa, a Ama em vez de lhe dar um par de meias, como faz toda a gente para não gastar muito dinheiro, oferecia-lhe sempre um kit de Higiene Oral, com uma escova de dentes, uma pasta de dentes, um fio dental, um elixir oral, um espelho e um spray para o hálito. Sim, todos os anos recebia para aí uns cinco kits e depois ouvia a sua Ama dizer: “ Sabe como é? Depois da festa acabar e de petiscar alguns bolinhos, pode estrear a sua prenda nova!” e a seguir ainda acrescentava: “Não é excitante?” com um grande sorriso nos lábios. Madly retribuía-lhe o sorriso mas pensava sempre “Acho que preferia as meias” e ia-se embora com o seu novo Kit de Higiene Oral.
E lá estava ela a divagar sobre os seus natais passados na casa de banho quando de repente despertou dos seus pensamentos ao ouviu um “plarrc!”. Madly olha em volta procurando o que tinha feito aquele barulho. Mas não foi preciso ver muita coisa pois, ao sentir um frio viscoso a invadir-lhe a privacidade da meia do seu pé, reparou que tinha entornado o copo de sabonete no chão! Ai que grande asneira! A rapariga entra em pânico e vai a correr buscar água à banheira, esquecendo-se completamente que o sabonete é escorregadio. O resultado? Pois bem, um grande trambolhão! Agora não era só chão que estava cheio de sabão mas também estava o seu pijama! E o pior foi que ao escorregar verteu um champô em cima duma toalha e, ao tropeçar no coelho, atirou-o para a sanita! Toca a levantar que ninguém pode ver aquela confusão e que o Mr. Fluffy está-se quase a afogar! Madly põe-se em pé num salto e vai buscar o seu peluche. Este escorria água por todos os lados, pingando o chão da casa de banho. A menina mete-o na banheira para lhe dar um banho mas o chuveiro estava demasiado longe e por isso ela também teve que lá entrar. Com cuidado, agarra-o e liga-o:
- Estás a ver, Mr. Fluffy? Eu também sei dar-te banho! Agora… vamos lá ver como é que se regula a quantidade! Deve ser para este lado! – Madly roda a torneira para um lado – Ahhh! Lado errado! – O chuveiro estava maluco! Parecia que tinha vontade própria! Disparando água de um lado para o outro, ia molhando as paredes de azulejos brancos e os móveis de mármore. O chuveiro tinha tanta força que nem Madly o conseguia impedir de inundar a casa de banho! A menina, desesperada, agarra no coelho e tenta aproveitar a água que saía “disparada” para lhe dar banho. Mas sem sucesso, pois mais molhada que o coelho estava ela! E com aquela confusão toda e alguns champôs entornados não tardou a começar a haver espuma. Madly procura uma toalha para tentar limpar aquela barafunda mas estavam todas molhadas e sempre que ela esfregava a mesma no chão, esta começava a criar espuma! Aflita, a menina percebeu que só havia uma maneira de limpar tudo: desligar o horroroso chuveiro! Arregaçando as mangas encharcadas do pijama, Madly enfia o peluche no bolso e entra dentro da banheira. Esta estava cheia de água (alguém se tinha esquecido de tirar a tampa). A rapariga tenta chegar à torneira, mas o chuveiro tornava-se sempre um obstáculo, estava constantemente a meter-se à sua frente. Madly, farta dos seus fracassos, perde a paciência e vai a correr na direcção da torneira. Pois bem, em vez de conseguir chegar ao outro lado, levou com o chuveiro na cabeça, fazendo um grande “splach!” ao cair na água.
De repente a porta abre-se e aparece a sua Ama, com a boca tão aberta que até parecia que chegava ao chão!
-Menina Madly! Que vem a ser isto? Mas que raio é que está a fazer?
- Não vês? Estou a tomar banho…- responde Madly com cara de poucos amigos e cuspindo um esguicho de água – Não era o que tu querias?
-Mas…mas… a esta hora já devia estar a…
- Lavar os dentes… Com toda a espuma que engoli, acho que a tarefa já está concluída!  

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